Porquês

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Luís Vaz de CamõesPorquês não é um indivíduo sem asseio, sujo.
Porquês não é a linguagem dos porcos ou suínos.
Porquês também não é o gentílico de quem nasce na cidade de Porcus.

Brincadeira à parte, os porquês, aos que me refiro aqui, são aqueles que ocorrem com frequencia em nossa irracional, traiçoeira e sádica língua portuguesa, e que tantas dúvidas nos causam na hora de empregá-los corretamente. São eles: porque, por que, por quê e porquê.
Há, na Internet, centenas de matérias a respeito que tentam esclarecer essa questão, mas nenhuma me satisfez por completo. Nem as do famoso e competente professor Sérgio Nogueira. Decidi então desenvolver uma metodologia própria para elucidar de vez o assunto.
São quatro situações distintas que as relatarei em “Casos”, as diferenciarei por “Cores”, e as solucionarei por “Regras”.
No texto abaixo, uma narrativa fictícia que criei, forço o surgimento dessas quatro situações, mostrando a forma correta de se empregar cada uma das variações… leia com atenção!

“Eu me casei porque já era noivo, mas eles, se realmente eram noivos, por que não se casaram?… cheguei até a perguntar-lhes: vocês não se casaram, por quê?… como não responderam, até hoje não sei o porquê!”


Luís Vaz de CamõesCaso 1: porque (conjunção) (designa “causa” ou “explicação”)

Eu me casei porque já era noivo…

Regra 1: Usar porque quando pudermos substituí-lo por: em razão de quepelo motivo de quejá quevisto quepoisuma vez que, de forma exata, sem alterar o sentido da oração… note!

Eu me casei pois já era noivo…


Luís Vaz de CamõesCaso 2: por que (preposição por + pronome que) (designa “razão”, “motivo”, ou reflete um termo anterior)

… se realmente eram noivos, por que não se casaram?…

Regra 2: Usar por que quando pudermos substituí-lo por: por que razãopor que motivopor qualpelo qualpela qualpelos quaispelas quais, de forma exata, sem alterar o sentido da oração… note!

… se realmente eram noivos, por que motivo não se casaram?…


Luís Vaz de CamõesCaso 3: por quê (preposição por + substantivo quê) (designa “razão”, “motivo”)

… vocês não se casaram, por quê?…

Regra 3: Usar por quê (em fim de frase, em pausa forte, ou locução), quando pudermos substituí-lo por: por que razãopor que motivo, de forma exata, sem alterar o sentido da oração… note!

… vocês não se casaram, por que razão?…


Luís Vaz de CamõesCaso 4: porquê (substantivo = causa, razão, motivo)

… como não responderam, até hoje não sei o porquê!

Regra 4: Usar porquê (normalmente precedido pelo artigo o ou um), quando pudermos substituí-lo por: motivo, de forma exata, sem alterar o sentido da oração… note!

… como não responderam, até hoje não sei o motivo!


Luís Vaz de CamõesA seguir, vários exemplos de emprego correto envolvendo os quatro casos, com os devidos esclarecimentos entre parênteses… confira!

Concordei porque fizeram uma boa proposta. (pois)
Estão passando por este drama porque foram teimosos. (em razão de que)
Ele viajou porque foi chamado para assinar contrato. (pois)
Ele não foi porque estava muito atarefado. (pelo motivo de que)
Abra a janela porque o calor está insuportável. (já que)
Ele deve estar em casa porque a luz está acesa. (visto que)
O advogado não compareceu à reunião porque está doente. (uma vez que)
Ela sobrevive porque é muito persistente. (visto que)

Por que ainda não assinaram o contrato? (por que razão)
Foi uma dificuldade por que não imaginavam passar. (pela qual)
Quero saber por que ainda não assinaram o contrato. (por que razão)
Não sei por que motivo ele foi demitido. (por qual)
Por que você não foi? (por que motivo)
Ninguém conhecia ao certo o ideal por que lutavam. (pelo qual)
Gostaria de saber por que você não foi. (por que motivo)
Só eu sei as esquinas por que passei. (pelas quais)
Não sei por que ele não veio. (por que motivo)
São regalias por que todos lutam para obter. (pelas quais)
Por que parou? (por que razão)
Não conheciam os caminhos por que trilhei. (pelos quais)
Ele não tinha por que fazer isso. (por que motivo)
É um drama por que muitos passam. (pelo qual)
Desconheço os motivos por que a viagem foi adiada. (pelos quais)
Não sei por que razão o advogado não lhe processou. (por qual)
Morou na rua por que passei dias atrás. (pela qual)
Não sei por que a análise ainda não foi feita. (por que razão)

Não retornaram por quê? (por que motivo – fim de frase)
Se ele mentiu, quero saber por quê. (por que motivo – fim de frase)
Quero saber onde, quando e por quê. (por que razão – fim de frase)
Ele quer saber por quê, onde e quando. (por que razão – pausa forte)
Por quê? Por quê? Repetia inconsolável a mãe. (por que razão – locução)
Parou por quê? (por que razão – fim de frase)
Ele não viajou por quê? (por que motivo – fim de frase)
Eu não sei por quê, mas eles se separaram. (por que motivo – pausa forte)

Não sei o porquê da sua intolerância. (o motivo)
Queremos um porquê para tudo isso. (um motivo)
Ela não sabe o porquê da nossa recusa. (o motivo)
Um porquê para sua exclusão é o que ele exige. (um motivo)
Queria entender o porquê da sua atitude. (o motivo)
A professora quer um porquê para tantos atrasos. (um motivo)
Ele quer saber o porquê da sua demissão. (o motivo)
O porquê da reprovação ficou sem resposta. (o motivo)
Ele não tinha porquê para fazer isso. (motivo – sem artigo)
Esse porquê não a convencera. (motivo – sem artigo)

Por que você estuda? Porque gosto de aprender. (por que razão) (em razão de que)
Por que parou? Parou por quê? (por que razão) (por que razão – fim de frase)


Luís Vaz de CamõesLogotipo Saiba Que! Como deve ter notado, essa figurinha que nos acompanhou nessa desvairada viagem gramatical, é a de Luís Vaz de Camões, o maior expoente do nosso idioma. Camões está para a língua portuguesa assim como Shakespeare está para a inglesa, ambos, poetas contemporâneos do século XVI.
Sua mais importante obra poética, Os Lusíadas, considerada a epopeia portuguesa por excelência, foi publicada pela primeira vez em 1572, no período literário do classicismo. A ação central é a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, à volta da qual se vão descrevendo outros episódios da história de Portugal, glorificando seu povo. Pode-se afirmar que essa obra é a mãe de todas as obras da literatura portuguesa.
Não posso assegurar que Camões tenha utilizado tal fartura de porquês em seus escritos, mas, mesmo após tantas reformas ortográficas, continuamos obrigados a conviver com tamanho absurdo, um acinte à inteligência… e não me pergunte o porquê!

12 Comentários

  1. Nilza Gutierrez diz:

    GENIAL ….AMEI!!!!!PARABÉNSSSSSSSSSSSSSS…

  2. Raquel diz:

    Este eh o porque que eu leio o saiba que!!!bjs

    • Aníbal Fernandes Filho diz:

      Oi, Raquel!
      Obrigado.
      De forma mais indicada, você poderia ter escrito:
      “Este é o motivo por que (pelo qual) eu leio o Saiba Que!”
      Ok?
      Abraço.

  3. Arlete Kaufmann diz:

    Mas este professor, não deixa passar nada hem??
    Eu já ia ser reprovada nas provas!!!!

    ahahahahahah!!!!

    Bjos
    Mana

  4. Arlete Kaufmann diz:

    Vc seria um belo professor, não somente pelo conhecimento, mas pela forma de explicar as coisas. Isto que eu chamo de pedagogia…que nem os que se formam na matéria….muitas vezes não tem o talento!!!
    Por que????
    Bravissimo!!!!

    • Aníbal Fernandes Filho diz:

      Oi, Arlete!
      Obrigado pelos elogios.
      Não mereço tanto.
      Desculpe, mas esse (Por que????) que escreveu é uma locução, portanto deve ser acentuado (Por quê????)… rsrsrs…
      Abraço.

  5. Arlete Kaufmann diz:

    Vc seria um belo professor, não somente pelo conhecimento, mas pela forma de explicar as coisas. Isto que eu chamo de pedagogia…que nem os que se formam na matéria….muitas vezes não tem o talento!!!
    Porque????
    Bravissimo!!!!

    • Aníbal Fernandes Filho diz:

      Oi, Arlete!
      Obrigado pelos elogios.
      Não mereço tanto.
      Desculpe, mas esse (Porque????) que escreveu é uma locução, portanto deve ser separado e acentuado (Por quê????)… rsrsrs…
      Abraço.

  6. Ana diz:

    Bem legal…quantas duvidas….!!!!

COMENTÁRIO

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